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Boletim Verde & AmareloNúmero 38
25 de julho / 2005
Confira neste número:
  1. Introdução
  2. A delação
  3. Pensando em Português®

  Esta é uma publicação eletrônica gratuita idealizada pelo Instituto de Português Verde & Amarelo tel. 4325-0932 / 4393-0645), dirigida a alunos, clientes e amigos. Tem como objetivo ampliar o contato entre aquelas pessoas que de uma ou outra forma se interessam pelo Brasil ou que desejam receber informações diversas em Português.



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1. Introdução
Pela professora paulista Anamaria Bacci

Oi gente, tudo bem? Mais uma vez estamos aqui para trazer pra vocês, alunos e leitores, novidades e temas relacionados ao nosso querido idioma português.
Este número do Boletim Verde e Amarelo é dedicado a um autor brasileiro, contemporâneo, Joca Reiners Terron. Nascido em Cuiabá, capital do Estado do Mato Grosso, em 9 de fevereiro de 1968, Terron é designer gráfico, poeta e editor. Já publicou vários livros, entre eles, Não há nada lá (2001), Hotel Hell (2003) e Animal Anônimo (poesia). O conto que apresentamos a seguir foi extraído de seu mais recente livro, lançado pela Editorial Planeta, Curva de Rio Sujo (2003), onde o autor mistura experiências e lembranças de sua infância usando seu humor ácido e singular.
Lá pelos idos de 1990, na cidade de Bauru, onde cursamos juntos a Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Terron já fazia suas anotações num caderninho que levava sempre consigo. Aquele pequeno livrinho sempre me causou curiosidade e felizmente, hoje, posso desfrutar das histórias, segredos e incursões ao mundo mágico das idéias deste maravilhoso poeta.   Espero que o mesmo aconteça com vocês. Boa viagem e até o próximo Boletim!

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2. A delação
por Joca Reiners Terron


Puxou forte a mão e me içou pelas axilas até o banco:
 - Quer um pastel?
Olhei para a gordura da estufa*:
  - Não, só refrigerante.
- Chefe, um guaraná, uma gelada e aquele pastel ali, o da esquerda, não, aí, esse.

Enquanto o balconista atendia o pedido, fiquei paquerando um pôster da seleção tricampeã do mundo. Ainda havia serpentina espalhada na rua lá de casa. Dias terríveis, aqueles.
Uma vez por ano meu pai empreendia sua visita nostálgica ao passado: perambulávamos pelo bairro operário onde ele nascera. O passeio consistia sempre no mesmo trajeto, a barbearia, onde me recebiam os abraços efusivos do Rigoletto  e sua cambada* de aposentados fedendo a uréia, depois o alfaiate (uma infinidade de camisas amarelinhas, rosinhas e azulzinhas para abastecer meu guarda-roupa).
Então atravessávamos a passarela sobre a ferrovia em direção à estação, o local de minha fantasmagoria de infância: um pedinte cuja cara não nos era possível divisar, tal o emaranhado de pêlos e sujeira, estirado em meio à passagem. Ele era minha esfinge particular. E o pior de tudo, éramos obrigados a ultrapassar suas pernas apodrecidas pela elefantíase.
Esta, a prova indiscutível de minha coragem. Enquanto subíamos a escadaria, eu apelava a todos os santos e super-heróis para meu obstáculo ter sido rebocado ao cemitério ou a um outro pontilhão distante. Mas não, ele permanecia sempre  no mesmo lugar, a perspectiva da ponte culminando naquele ponto inexpugnável. Da última vez em que passamos por ali o mendigo agarrou com força minha canela, babujando palavras incompreensíveis. Com todo o asco do universo, agarrei na manga de meu pai, que, depois de algum esforço, me resgatou para longe, à boa hora do pastel com guaraná caçulinha*.

O boteco era bem pé-sujo*, com uns caras mal-encarados sentados ao fundo. Ficava dentro da estação de trens e o garçom também não era lá nenhum maitre trazido pela locomotiva de algum lugar decente. Não sei por que meu pai adorava aquele bar imundo, devia lhe trazer boas recordações. Meu avô era ferroviário e também o levava até ali para comer pastel, depois da escala no barbeiro pra aparar o corte escovinha. Os vidros multicoloridos de loção nas prateleiras da barbearia ainda eram os mesmos daqueles tempos, assim como a cadeira giratória de ferro e a escarradeira dourada na parede. Porém o bairro mudara muito, a decadência era tão visível quanto a bosta de barata nos suspiros* da doceira. 
 - Bem, pelo menos está gelada... E o seu guaraná?
 - Pai, por que aqueles homens estão olhando esquisito para gente?
 - Sei lá, filho, beba seu refrigerante antes que esquente, já que você não quis comer nada.
Após dizer alguma coisa aos outros, um dos sujeitos levantou e se aproximou de nós.
 - Ô Espanhol, esse pastel aí, é de hoje? – O cara continuava olhando torto*, com o braço apoiado sobre o balcão. Nos mexemos, intimidados pela sua proximidade, enquanto os homens da mesa encaravam a gente.
O coroa* cochichou* em meu ouvido: “que tal passarmos na banca de jornal pra ver se já saiu o Gibi* desta semana?” Nem pude responder e o tom grosseiro de nosso vizinho nos sobrepujava os ombros:
 - O malandro não é da vizinhança...O que o traz a estas bandas?
Meu pai, olhando-o nos olhos, disse que havia nascido ali, mas deixara a cidade há bastante tempo.
 - Engraçado, não me lembro da sua fuça.*
 - É compreensível, me mudei há muito daqui, sou bancário e fui transferido para outra cidade...
Naquele instante, movido pelo medo e considerando que aquela condição profissional não era suficiente para remediar nossa situação, disse a frase pela qual até hoje minha mãe me culpa:
 - Não é bancário não, ele é polícia!
Sob o olhar surpreso de meu pai, observei nosso inquisidor fazer um sinal aos cupinchas*. Enquanto eles irrompiam em nossa direção, fui arrastado por um beliscão porta afora. O braço dói até hoje. A consciência estirada e roxa ainda atrapalha a passagem feito uma perna com elefantíase.

Vocabulário

Estufa: Galeria envidraçada na qual se aquece artificialmente a atmosfera para manter comidas quentes nos bares e lanchonetes.
Cambada: Coletivo de pesoas, no sentido vulgar. Multidao de pessoas desprezíveis, corja.
Caçulinha: em tamanho pequeno. No Brasil de antigamente era muito comum, depois saiu de linha e hoje voltou a ser feito pelas indústrias de refrigerante.
Pé-sujo: mal frequentado.
Suspiro: Culinária: Pasta de claras de ovo batidas com açúcar, utilizada, em geral, para coberturas e recheios de tortas; merengue
Olhar torto: Expressão usada quando alguém olha com cara feia outra pessoa, olhar ameaçador.
Coroa: Na gíria brasileira: pessoa que está passando da maturidade à velhice.
Cochichar: Falar em voz baixa, murmurar.
Gibi: Nome registrado de determinada revista em quadrinhos, infanto-juvenil.
Fuça: Ventas, focinho. Cara, rosto, focinho.
Cupincha: Camarada, companheiro, comparsa, amigo

Para mais informação e textos do autor, visite a página
http://www.hellhotel.blogger.com.br/

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3. Pensando em Português®

Linguagem coloquial

O que é, o que é?

 

A. Relacione

  1. Ele sempre insiste em sua próprias opiniões, é um
  2. Flavinha não se preocupa com nada! Que garota mais
  3. Fernando se esqueceu outra vez dos documentos. Esse menino tem uma
  4. Quando Luciana fica nervosa com seu marido é capaz de
  5. Por ter sido criticada na reunião, ela saiu de
  6. Para fazer os cálculos mensais, Fernando teve que
  7. Mariana só se preocupa com sua aparência, ela é uma
  8. Ronaldinho gosta de fazer gols

( ) Cabeça-dura

( ) Cabeça oca

( ) Cabeça-de-vento

( ) Cabeça fria

( ) Perder a cabeça

( ) Quebrar a cabeça

( ) De cabeça

( ) De cabeça baixa


B. Relacione:

  1. Ele é um grande pão duro, um verdadeiro
  2. As mulheres fogem dele por causa de sua
  3. Todos o respeitam. Ele dirige a firma com
  4. Veja que blusa bonita! Ela mesma fez. Ela tem
  5. Ele faz tudo com perfeição. Ele faz tudo com
  6. Sem você nos não teríamos terminado o trabalho. Sua ajuda foi mesmo uma
  7. Ele nunca tem dinheiro porque vice socorrendo os amigos. Ele é um

( ) Mão-aberta

( ) Mão-de-ferro

( ) Mão-de-mestre

( ) Mão-de-vaca

( ) Mãos-de-fada

( ) Mão-na-roda

( ) Mão-boba


C. Relacione

  1. Quem tem pé-de-anjo
  2. Quem é pé-rapado
  3. Mulher que tem pé-de-galinha
  4. Quem é pé-de-boi
  5. Quem é pé-de-chumbo
  6. Quem é pé-frio
  7. Quem fala ao pé do ouvido fala

( ) usa sapatos enormes

( ) sempre trabalha muito

( ) sempre traz azar

( ) dirige em alta velocidade

( ) não tem dinheiro nem fama

( ) não é muito jovem

( ) discretamente, em segredo


D. Relacione

1. Cara de tacho

2. Cara de fuinha

3. Com a cara no chão

4. Cara amarrada

5. De cara cheia

6. De cara limpa

( ) Quem não bebe sempre está

( ) Quem bebe muito fica

( ) Quem passa vergonha fica com

( ) Quem está impaciente ou nervoso fica com

( ) Quem não sabe o que fazer fica com

( ) Quem tem cara de poucos amigos e tem má vontade tem


Respostas:

A. 1, 7, 3, 2, 4, 6, 8, 5

B. 7, 3, 5, 1, 4, 6, 2

C. 1, 4, 6, 5, 2, 3, 7

D. 6, 5, 3, 2, 1, 4

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