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2. O Trabalho
Professor Igor Franco Ravasco Moreira Maia
Confesso que fiquei surpreso quando fui convidado para escrever no Boletim dedicado ao Dia do Trabalho. Bom, falar em convite, na verdade, é um eufemismo*, já que fui intimado a escrever no primeiro Boletim deste mês. Desde quando um carioca pode falar de trabalho? Mais do que uma contradição, é um paradoxo*.
Bem, talvez este seja o pensamento de muitas pessoas, que realmente acreditam que o Cristo Redentor, no Rio, está de braços abertos esperando o primeiro carioca trabalhar para começar a aplaudir. Mas contradizendo todos os que pensam que todo carioca é malandro* e meio vagabundo*, aqui estou trabalhando para falar um pouco sobre esta comemoração do dia 1º de maio.
A luta por melhores condições de trabalho não nasceu há pouco tempo, remonta à antigüidade. Segundo os historiadores, os primeiros registros de movimentos grevistas são do tempo dos faraós, de uma greve dos escravos construtores das pirâmides, exigindo o fim dos maus tratos e protestando contra a fome. Não se tem notícia de que cortassem o rio Nilo para o trânsito de barcos, mas com certeza os insensíveis do local deviam achar que eles todos eram um bando de exagerados que queriam viver às custas do faraó do momento.
Mas onde entra o 1º de maio nessa história toda? Será que Cleópatra é a responsável pelo feriado, pois queria fazer um piquenique em Nova Iorque e não tinha uma data? Não, nada disso. Em 1886, no dia 1º de maio, na cidade de Chicago (por favor, não confundam com “la cancha de Nueva Chicago”), 200 mil trabalhadores, organizados pela Federação dos Trabalhadores dos Estados Unidos e do Canadá, resolveram entrar em greve. Os trabalhadores protestavam contra as condições de trabalho desumanas a que eram submetidos e exigiam a redução da jornada de trabalho de 13 para 8 horas diárias. A polícia reprimiu violentamente a greve, causando a morte de muitos grevistas, e prendendo oito dos principais líderes do movimento. Dos oito, quatro foram enforcados, depois de um julgamento sumário, dois se suicidaram e os outros dois restantes foram condenados à prisão perpétua.
Dois anos depois das execuções de Chicago, o Congresso Socialista Internacional aprovou o dia 1º de maio como dia do Trabalho. No Brasil, o dia foi comemorado pela primeira vez em Santos, em 1895, mas a primeira manifestação pública em comemoração ao dia só aconteceu em 1903, no Rio de Janeiro. Em setembro de 1925, o presidente Artur Bernardes decretou o dia 1º de maio como feriado nacional.
Hoje, pelo menos no Rio de Janeiro, o feriado não é comemorado em praça pública, entre manifestações, mas na praia, se fizer um dia bonito de sol. É lá que o carioca descansa e recarrega as energias para continuar na luta de todos os dias. Lamento informar aos que acreditam em estereótipos, que, sim, os cariocas trabalham. Talvez nem tanto por prazer, mas por saber que pior que trabalhar é ficar sem dinheiro. Essa história de que o carioca passa 24 horas na praia é mito. Tá, mas reconheço e admito que a maneira carioca de encarar o trabalho muitas vezes é diferente. Percebi e percebo que quase sempre o carioca vê as pressões do trabalho apenas no trabalho, e no horário de trabalho. Acabou o expediente, tchau e até amanhã, nada de ficar dando horas de vida para os patrões nem de ficar se amargurando* enquanto toma uma cervejinha antes de ir para casa.
A favor ou contra o trabalho, desde a frase “O trabalho dignifica o homem” até “Trabalhar pra quê?”, algumas personalidades durante os séculos falaram sobre o trabalho. Gostaria de deixar algumas dessas frases:
"Creio bastante na sorte. E tenho constatado que, quanto mais eu trabalho, mais sorte tenho"
Thomas Jefferson
"O trabalho é o refúgio dos que não tem nada para fazer" Oscar Wilde
"Toda profissão é grande quando exercida com grandeza" J.Jofrey
"O trabalho espanta três males: o vício, a pobreza e o tédio*" Voltaire
"Estes brutos (os operários) só compreendem a força, uma força que possam recordar durante várias gerações..." New York Tribune, 1886, sobre a repressão da greve na cessa Haymarket, em Chicago, nos Estados Unidos.
"Hora de comer, - comer! Hora de dormir, - dormir! Hora de vadiar, - vadiar! Hora de trabalhar? - Pernas pro ar que ninguém é de ferro!" Ascenso Ferreira
Para finalizar estas poucas linhas, gostaria de deixar a definição do verbo trabalhar, dada pelo dicionário Aurélio.
Trabalhar: Do latim vulgar tripaliare, martirizar com o tripalium (instrumento de tortura).
Feliz Dia do Trabalho! E que cada um trabalhe e comemore como achar mais divertido.
Glossário
Eufemismo: Ato de suavizar a expressão duma idéia substituindo a palavra ou expressão própria por outra mais agradável, mais polida.
Paradoxo: Conceito que é ou parece contrário ao comum; contra-senso, absurdo, disparate.
Malandro: Indivíduo dado a abusar da confiança dos outros, ou que não trabalha e vive de expedientes; velhaco, patife. Indivíduo dado a abusar da confiança dos outros, ou que não trabalha e vive de expedientes; velhaco, patife.
Vagabundo: Indivíduo desocupado, ocioso, vadio.
Amargurando: Causar amargura a; angustiar, afligir.
Tédio: Aborrecimento, fastio, nojo, desgosto.
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