“...Misturando a minha maluquez*
Misturada com minha lucidez
Vou ficar
Ficar com certeza
Maluco beleza* ...” (Raul Seixas)
O nosso maior maluco beleza foi Raul Seixas. O ídolo roqueiro cultuado por várias gerações de brasileiros. Raul nos deixou em 1989 e hoje em dia você encontra no Brasil uma infinidade de fãs clubes com seguidores implacáveis, com suas camisetas estampadas com o rosto de Raulzito, como era chamado por muitos. Você pode encontrar um fã de sessenta anos ou um de doze ou treze. É melhor não dizer a um fã ardente de Raul que ele morreu. Já que para seus seguidores ele continua vivo para sempre.
Eu também tive a minha fase “ardente”. Quando tinha dezesseis anos passei por um processo de “raulseixismo crônico”. Só escutava as músicas de Raul, o resto para mim não era música. A fase radical já passou, mas o respeito por ele continua.
Raul Santos Seixas nasceu em 28 de junho de 1945, em Salvador, na Bahia. Filho de Maria Eugênia Santos e Raul Varella Seixas, o próprio Raul costumava dizer que tinha nascido da bomba atômica.
Nascido em uma família de classe média, Raul adorava ficar na vasta biblioteca de seu pai devorando os livros e criando histórias, que posteriormente transformava em gibis* e os vendia ao seu irmão caçula*, Plínio.
Na adolescência interessou-se pela música de Luiz Gonzaga, Elvis Presley e Jerry Lee Lewis. Ele costumava matar aula* e preferia ficar na loja Cantinho da Música escutando o rock que chegava. Por isso terminou repetindo o segundo ano por três vezes. O look dessa época era: brilhantina no cabelo, camisas coloridas, jaqueta de couro, além de freqüentar regularmente o Elvis Rock Club, onde tinha sua carteirinha de sócio.
Em 1962, junto com os irmãos Décio e Thildo formaram os Relâmpagos do Rock. Em 1964 os Relâmpagos passaram a se chamar The panters, chegando a gravar duas músicas em estúdio que não foram lançadas. Finalmente, o nome foi mudado novamente para Raulzito e os panteras. Compraram nova aparelhagem de som, fizeram muitos shows e ficaram famosos na Bahia. Vários artistas importantes queriam ser acompanhados pela banda. Seus maiores “rivais” eram o pessoal do samba e da Bossa Nova, que se reuniam no Teatro Vila Velha .
Nessa época Raul conheceu a americana Edith Wisner e resolveu parar a carreira artística, voltou a estudar e foi um dos primeiros colocados no vestibular* da Faculdade de Direito, tendo declarado na época: “Viu como é fácil ser burro ?”.
Em 1967 casou-se com Edith e para sobreviver, dava aulas de inglês. Retomou o trabalho com Os Panteras.Viajou com o cantor Jerry Adriani para o Rio de Janeiro, onde gravaram o LP Raulzito e os panteras lançado em 68, mas que foi um verdadeiro fracasso. Com isso, a banda passou a tocar como apoio de Jerry Adriani, mas o trabalho durou pouco. Raul, então, voltou a Salvador.
Em 1970 começou a trabalhar como produtor de discos na CBS. Aproveitando uma viagem do presidente da gravadora, Raul produziu o LP Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das dez. Resultado: quando o presidente voltou, Raul foi demitido. Nesse mesmo ano nasceu sua primeira filha: Simone Andréia.
Em 72 suas duas músicas inscritas no VII Festival Internacional da Canção foram classificadas: Eu sou Eu, Nicuri é o Diabo e Let Me Sing, Let Me Sing. Mas o sucesso veio nesse mesmo ano com o compacto Ouro de Tolo.
Em 1973 lançou com Paulo Coelho Guita, conquistando seu primeiro disco de ouro. Com Novo Aeon o sucesso não foi tão grande. Ainda com Paulo Coelho, Há dez mil anos atrás foi um novo grande sucesso. Em 75 Raul Seixas se casou com Glória Vaquer e a parceria com Paulo Coelho chegou ao fim. Escarlet, sua segunda filha, nasceu em 1976 no Rio de Janeiro.
Lançou O dia em que a terra parou em 1977 e gravou para a Rede Globo o videoclipe do clássico Maluco Beleza. Nesse mesmo ano se separou de Glória. Este disco foi muito criticado e Raul foi afetado por problemas de saúde. Depois de haver descansado em uma fazenda no interior da Bahia, voltou com uma nova companheira, Tânia Barreto. Em 1978 lançou Mata Virgem e um ano depois Por quem os sinos dobram, seu último na gravadora WEA. Quando saiu, levou consigo sua secretária de imprensa, Ângela Costa, mais conhecida como Kika Seixas. Em 79 foi submetido a uma cirurgia no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, na qual perdeu metade do pâncreas.
Em 1980, lançou Abre-te Sésamo pela CBS, que continha a música censurada Rock das Aranhas. Foi morar em São Paulo com Kika, onde nasceu sua terceira filha Vivian, em 81.
Em 1982 Raul Seixas foi confundido com um sósia impostor na cidade paulista de Caieiras, por ter subido no palco bêbado e além disso não ter lembrado as letras das músicas. Quase foi linchado, pois não estava com os documentos e não tinha como provar quem era. Levaram-no preso e o espancaram* na cadeia. Foi liberado assim que sua esposa levou-lhe os documentos.
Ficou sem gravadora ao rescindir seu contrato com a CBS, que queria que ele fizesse seu seguinte álbum em homenagem a Lady Diana. Apenas em 83 gravou pela Eldorado o disco Raul Seixas, recebendo seu segundo disco de ouro com a música Carimbador Maluco, tema do especial infantil da Rede Globo Plunct Plact Zumm. Lançou ainda um livro: Aventuras de Raul Seixas Na cidade de Thor.
Em 1984 Raul fechou com a Som Livre, lançando Metrô Linha 743 e terminou seu casamento com Kika. Mais uma vez foi a Salvador para fazer um tratamento e quando voltou a São Paulo estava com outra mulher: Lena Coutinho.
Em 85 o Raul Rock Club lançou o álbum Let Me Sing My Rock And Roll, tendo sido o primeiro fã clube brasileiro a produzir e distribuir um disco.
No ano de 1986 Raulzito lançou Uah-Bap-lu-Bap-Lah-béin-Bum!, disco gravado pela Copacabana e com grande sucesso com o hit Cowboy Fora da Lei.
Com o músico baiano Marcelo Nova, ex-líder da banda Camisa de Vênus, Raul compôs Muita Estrela, Pouca Constelação. Os dois músicos começaram a apresentar-se juntos e terminaram fazendo uma turnê por todo o país. Essa experiência se transformou no disco A Panela do Diabo. Eles resolveram dar esse nome ao disco, pois durante a turnê, um grupo de religiosos começou a distribuir panfletos que diziam ser Raul Seixas a encarnação do Diabo, porque o menciona em suas músicas e por ter dito em uma de suas canções que tinha visto Cristo ser crucificado. O disco Panela do Diabo foi lançado dois dias antes da morte de Raul.
Dona Dalva, a empregada de Raul, entrou em seu quarto no dia 21 de agosto de 1989 e o encontrou morto. Ele morava em São Paulo, mas foi enterrado em Salvador.
Raul conseguiu fazer a fusão do rock'n roll com os mais variados ritmos brasileiros, do xote* ao baião*, dando uma identidade própria ao Rock nacional. Fez até mesmo uma versão em português do tango Cambalache no disco Uah-bap-lu-Bap-lah-béin-Bum. A música, para Raul, não tinha fronteiras. Suas letras falavam de uma Sociedade alternativa onde cada um faria o que quisesse, falava do fio* tênue que separa a loucura e a normalidade, da paranóia que permeia as grandes cidades e sempre afirmava que ele expunha seu ponto de vista sobre a humanidade. Fazia críticas sociais de um jeito sutil e irônico, numa época em que no Brasil, todas as músicas e peças de teatro passavam pelo pente* fino da censura. Raul foi expulso do país em 74 por falar de uma sociedade diferente, morando um tempo nos Estados Unidos. Lá, esteve com John Lenon. Os dois trocaram idéias, cada um falando sobre o que pensavam da vida e como imaginavam um mundo melhor.
Tinha diabetes e padecia de uma pancreatite aguda. Foi internado várias vezes em clínicas psiquiátricas durante a sua vida. Mas a que ele mais gostava era a Clínica Tobias, em São Paulo (citada na música Canceriano sem lar), que tinha uma linha humanística e naturalmente não usava os tratamentos convencionais. Dizem que Raul tinha a possibilidade até mesmo de dar suas escapadinhas à noite e ir “tomar umas” no boteco* da esquina.
Como tantos outros ídolos musicais, Raul morreu jovem, mas deixou uma rica obra musical e uma imensa legião de fãs. Foi marginalizado e censurado. Depois de experimentar a fama chegou a enfrentar o desprezo e a pobreza. E ele mesmo não queria fazer parte da turma de músicos famosos da Bahia, que ele chamava de turma do dengo*. Ele gostava de contrariar, fazer pensar e incomodar. Como ele mesmo afirmou na música Mosca na Sopa: “EU SOU A MOSCA QUE POUSOU EM SUA SOPA: EU SOU A MOSCA QUE PINTOU* PRA LHE ABUSAR”
Maluco: Diz-se de alienado mental; doido, louco; idiota.
Maluco Beleza: Expressão utilizada a partir da música de Raul Seixas que significa "não pertencer aos padrões convencionais da sociedade".
Gibis: Nome registrado de determinada revista em quadrinhos, infanto-juvenil.
Caçula: O mais moço dos filhos, ou dos irmãos
Matar aula: Faltar aula
Vestibular: Exame de admissão a qualquer escola de nível superior
Espancar: Agredir com pancadas; desancar
Pancada: Agressão física por meio de socos, tapas, bordoadas, etc.;
Xote: Antiga dança de salão, talvez proveniente da Hungria, em compasso binário ou quaternário, e cujos passos se aproximam dos da polca.
Baião: Dança e canto popular, ao som da viola e doutros instrumentos, derivada do baiano; baiano, chorado, choradinho.
Fio: Espanhol: hilo
Pente: Instrumento com dentes muito próximos, presos a uma barra, e que serve para alisar, desembaraçar, ajeitar ou limpar os cabelos.
Boteco: Bar
Dengo: Melindre feminino; denguice.
Um amor em cada Porto...
Entre um Porto Seguro e um Porto Alegre, ficarei sem dúvida com o Alegre... Queres saber por quê?
Tchan-tchan-tchan...
Em primeiro lugar, peço desculpas aos demais brasileiros, mas agora chegou a minha vez.... Por favor não se ofendam, mas... vocês vão ficar com inveja*.
Querido leitor, hoje vamos falar como velhos amigos. Afinal, já faz quase um ano que nos conhecemos. Acho que já temos certa intimidade e posso te contar um pouquinho sobre a minha cidade...
... quero partilhar contigo o perfume das flores que senti, quero que tu escutes o barulho das ruas por onde andei, que vejas as cores do céu que sempre vi, que aprecies o pôr-do-sol* que nunca esqueci*...
Nossa, que saudade*!
Então, muita atenção porque vem aí..... O Porto mais Alegre do mundo....
Liberdade Condicional
Mário Quintana*
Poderás ir até a esquina
Comprar cigarros e voltar
Ou mudar-te para a China
-só não podes sair de onde tu estás.
Esteja onde estiver, nunca poderei esquecer* esta metrópole tão linda e tão grande. Não poderei deixar de derramar lágrimas ao lembrar seu aconchego* de cidade do interior. Sua terra, essa gente, minha gente: minha mãe, meu pai, meus irmãos e amigos e minha cachorrinha que por lá deixei!!! Snif, snif, snif, buáááá....
E tu, ingrato turista, que quando sais de Buenos Aires passas por minha cidade e vais direto para Camboriú? Não sabes o que estás perdendo!! Mas hoje tenho certeza de que vou-te convencer... E te arrependerás eternamente de não ter ido antes provar a delícia de pousar teus olhos sobre este lugar!!!
Mas vou dar-te uma segunda chance! Tu queres algumas pistas?
· Porto Alegre adormece coberta por um manto dourado – é o sol no Guaíba.
· A cidade amanhece sempre com um sorriso – é também chamada “Cidade Sorriso”.
· O perfume desta cidade se parece ao de um bosque verde – há muitos parques.
· Escutamos um canto que é nossa exclusividade – o Vento Minuano.
· Há tantas opções de cultura que vão fazer a tua cabeça.
· Por suas ruas desfila um ar de história jamais contado por ninguém – somos lutadores.
· Nossa comida é de dar água na boca.
· Comemos carne assada na brasa – faz parte de nossa história.
· Tomamos uma bebida quente e amarga – coisa de valentes.
· Essa bebida é partilhada numa roda de amigos – coisa de gente mansa.
· Caminhando pelas ruas de nossa cidade, vais descobrir que a hospitalidade é um dos principais ingredientes da alma gaúcha*.
· Quem nasce no estado do Rio Grande do Sul é chamado de gaúcho.
· Não usamos o “você” como expressão de tratamento, mas sim o “tu”.
Por isso, não te assustes, mas hoje vou falar como uma gaúcha de verdade...
Então, já estás com água na boca? Queres desviar teu caminho?
Bem, vamos de mãos dadas passear por minha cidade... Tu és meu convidado de honra...
PARA ESCREVERES NUM CARTÃO-POSTAL
Mário Quintana
Ó céus* de Porto Alegre,
como farei para levar-vos para o Céu?!
Receita de qualidade de vida
Pega uma metrópole de porte médio com 1,5 milhão de habitantes localizada no epicentro das principais rotas do Mercosul e acrescenta um imenso lago de águas mansas, um clima dividido em quatro estações e a mais extensa área verde entre as capitais brasileiras. Tempera com pitadas de hábitos interioranos, como instalar cadeiras nas calçadas para esquadrinhar* estrelas nas noites de verão. Mistura com bons índices de saúde pública e infra- estrutura de primeiro mundo. Degusta sem pressa esta iguaria turística, chamada Porto Alegre, de preferência à hora do poente, considerado um dos mais belos do mundo.
O peculiar sabor da capital do Rio Grande do Sul reside na mistura do frenético ritmo citadino com serenos costumes da província. Os morros, o lago Guaíba e as ilhas garantem imagens de cartão postal. Nos fins de semana a população lota* os bares, calçadões* e ciclovias instalados na orla, onde são praticados esportes náuticos. Também os sete grandes parques da cidade acolhem o povo, munido do inseparável chimarrão*. A cidade é pródiga em teatros, cinemas, shoppings e livrarias, proporcionando intensa vida cultural, lazer* e roteiros de compras a qualquer hora do dia. Os eventos técnico-científicos e a efervescência econômica atraem legiões de turistas de negócios.
A feição cosmopolita é condimentada pela tradição campeira. Quando assobia* o vento Minuano*, homens embrulhados* nos ponchos palmilham as ruas misturando-se a um compêndio de tipos humanos formado pela fusão de mais de 30 etnias. São os habitantes da cidade onde tu encontrarás a melhor qualidade de vida do Brasil e uma hospitalidade que não é apenas marketing turístico, mas uma das tantas características do jeito manso de ser do gaúcho.
O que tu queres conhecer primeiro?!
Formada por prédios* e monumentos muito antigos, cercados pelos modernos edifícios do centro urbano, a arquitetura relata o passado da capital gaúcha. Para conhecê-la não é preciso guia ou ônibus turístico. O roteiro* pode ser feito a pé, durante uma manhã ou tarde. Mas um avisinho: coloca calçados cômodos, pois Porto Alegre não é uma cidade plana.
Comecemos o passeio junto a uma fonte de azulejos azuis e amarelos onde os pombos se banham. É a Talavera de la Reina, doada pela colônia espanhola de Porto Alegre, em 1935, que repousa sobre o marco zero da cidade, na praça Montevidéu. Atrás desta fonte, no majestoso prédio neoclássico construído na virada do século e guardado por leões de mármore, funciona a sede do governo municipal.
Atravessemos a rua em direção ao Largo Glênio Peres, palco constante de manifestações populares, e caminhemos sobre um tapete persa feito com basalto cinzento e pedras portuguesas rosadas, brancas e pretas. O pitoresco Mercado Público Central, localizado à esquerda do Largo, na Praça XV de Novembro, foi inaugurado em 1869 e, como a prefeitura*, tem estilo neoclássico. Totalmente restaurado, exibe artigos típicos gauchescos, especiarias, bares, restaurantes e sorveterias nas mais de 100 bancas*. É lindo, tu não achas?
Vês? Na mesma praça se instala um aprazível restaurante, o Chalé da Praça XV, construído em estilo bávaro com traços "art noveau". Em frente ao Chalé, fotógrafos lambe-lambe* exercem seu ofício, indiferentes à era da foto digitalizada.
Tu já estás cansado? Mas nós nem começamos, tchê.
Ah! Esqueci de te avisar que no Sul também usamos a expressão “tchê”. Igualzinho aos argentinos.
Retornemos ao prédio da Prefeitura e sigamos pela rua de trás, a Siqueira Campos. Chegaremos ao belo prédio da antiga Alfândega. Na praça localizada junto ao edifício, aninham-se o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), o antigo prédio dos Correios e Telégrafos e o Banco Meridional (ex-Banco Nacional do Comércio) - onde existem deslumbrantes vitrais franceses. Vês que lindas cores?
Agora prepara teus olhos porque vamos passar por uma praça completamente lilás. É a Praça da Alfândega. Seus jacarandás confundem o azul do céu com o lilás das flores.... Ai Meu Deus, como pode haver tanta beleza!!! Esse perfume .... tanto tempo não sentia...
Partindo da praça da Alfândega, a antiga Rua da Ladeira, leva à Catedral Metropolitana, cuja cúpula é uma das maiores do mundo. Mas te prepara para a subida, pois a ladeira é muito inclinada.
Vizinho da Catedral, o Palácio Piratini - sede do governo Estadual - exibe o estilo Luiz XV. A antiga Assembléia Legislativa e o Museu Júlio de Castilhos integram o mesmo conjunto arquitetônico.
Agora tu não vais acreditar...
Da praça da Matriz, localizada junto a este núcleo histórico, sigamos à esquerda e serás apresentado ao Theatro São Pedro, todo decorado com veludo e ouro. Descendo pelo lado do teatro, descubrirás uma elegante construção neoclássica, inspirada na igreja Santa Genoveva, de Paris: a Biblioteca Pública Estadual, onde existe o salão Mourisco, também recoberto de ouro, que abriga saraus e recitais.
Agora vamos dar uma voltinha pela Rua da Praia?
O calçadão é palco de muitos espetáculos. No centro da cidade, artistas de rua também retratam os populares, disputando espaço com os cantadores da terra, músicos andinos, violinistas, mímicos, acrobatas e palhaços que transformam a Rua da Praia em uma verdadeira festa.
Caminhando um pouquinho mais, podemos aproveitar para tomar um gostoso café na Casa de Cultura Mário Quintana.
Prédio em estilo barroco construído no início do século. O antigo Hotel Magestic, foi residência de uma das mais ilustres figuras do Rio Grande do Sul e do Brasil: o poeta Mário Quintana. Restaurado em 1990, passou a abrigar um dos mais completos centros culturais da América Latina. No fim da tarde, o Café Concerto do último andar é um local perfeito para se apreciar o poente ao som de excelente música ao vivo. "Em uma noite estrelada (...) se poderia decidir aí o destino de um homem (...)", escreveu o jornalista Júlio Mariani. E neste destino certamente estará traçado um retorno a Porto Alegre.
Tu estás gostando do passeio? Então vem que vou-te mostrar mais....
Da Volta do Gasômetro, no centro da cidade, presenciamos a comunhão entre a cidade e o Guaíba. Um prédio, localizado à beira do Guaíba, exibe uma chaminé de 117 metros e hoje abriga um centro cultural: a Usina do Gasômetro. O local é um camarote perfeito para apreciar o afamado pôr-do-sol do Guaíba e um arremate irretocável para qualquer programa.
No local, além de visitar uma antiga usina termoelétrica - hoje transformada em importante centro cultural - o barco Noiva do Caí acolhe aos turistas para um belo passeio pelo lago polvilhado de ilhas. Outro barco, o Cisne Branco, tem sua saída do portão central do cais do porto e oferece delicioso almoço a bordo.
Tu estás preparado??? Atenção maestro: música. Aí vem o maior espetáculo da terra....
Quando o sol se derramar sobre o lago....
...relaxa teu corpo, abre bem os teus olhos e deixa a emoção tomar conta de ti. Se quiseres podes até tirar fotos. Tenho certeza de que jamais verás coisa igual....
Pôr-do-sol no Guaíba: espécie de grife* porto-alegrense. Não é mera corujice* dos gaúchos. As constantes mutações do céu, onde se apresenta um verdadeiro mostruário de cores inverossímeis espelhadas nas águas plácidas do lago, é uma verdadeira obra divina. Para esta aquarela, não se economizou nem um pouquinho de tinta. Ao contrário, delicadamente foi sendo colocada cada tonalidade com a precisa preocupação de não haver exageros nem faltar alguma cor. E lá está, a aquarela viva, todos os dias sem falhar. O que mais podemos querer da vida???
Talvez o desejo de fazer o mesmo que o sol: abraçar e beijar o Guaíba a cada entardecer.
É difícil não contar...
Porto Alegre, com seu lago sereno emoldurado de morros, já foi comparada a dezenas de belas cidades do mundo, conforme enumerou o escritor gaúcho Érico Veríssimo, na crônica "Cidade dos Poentes". Um turco, ao avistá-la, exclamou: "Istambul". Um negociante americano comparou-a a Seattle e o próprio Veríssimo a julgava irmã de São Francisco, na Califórnia.
" Deus resolveu pintar o Rio com tinta a óleo, decidindo que Porto Alegre fosse uma simples aquarela. Devo confessar que (...) à natureza carioca, (...) prefiro a nossa, menos exuberante e espetacular, porém mais rica em matizes - uma natureza que não esmaga o homem, sendo antes uma companheira com a qual ele quase está liricamente de acordo", escreveu.
De cima dos morros....
Apresentando variada vegetação, campos e matas nativas, do alto de cada morro da cidade pode-se observar uma vista panorâmica diferente, todas elas inesquecíveis. É possível apreciar a geografia da cidade, com suas características naturais e também a distribuição populacionalE
BRIQUE DA REDENÇÃO
Um dos primeiros conselhos dos filhos da terra a quem visita Porto Alegre é: "Se ficares até domingo, não deixes de visitar o Brique da Redenção." Mais do que um brechó inspirado no de San Telmo (Buenos Aires), feira de artes plásticas e artesanato, o brique é um mostruário da alma e da cultura gaúcha. Pacatas famílias - com cães na coleira* e bebês nos carrinhos - partilham o chimarrão com os membros das tribos mais exóticas da cidade - com seus cabelos multicoloridos e roupas negras. Militantes de todos os partidos fazem campanha na feira, teatreiros apresentam esquetes das peças em exibição na cidade, capoeiristas* se apresentam no meio da rua e músicos - inclusive líricos - cantam entre as barracas.
Agora vou-te fazer outro convite...
Que tal irmos até Ipanema, bairro banhado pelas águas do Guaíba, onde se junta a maior parte da gurizada* gaúcha? Ali, aos sábados e domingos à tarde, pode-se praticar esportes náuticos, jogar vôlei na areia ou simplesmente degustar um chopinho entre amigos. Durante o percurso, contarei um pouquinho sobre a cultura dos gaúchos. Tu queres?
Comecemos pelo folclore...
Como capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre tem o folclore gaúcho como cartão de visita. Homens fortes e trigueiros, que vestem bombachas e calçam botas de couro, fazem par com mulheres de longas saias coloridas e flores nos cabelos trançados.
Os gaúchos e prendas, espécies de anfitriões oficiais, convivem com outros tipos folclóricos. As culturas alemã e italiana, por exemplo, encontram-se igualmente bem representados na cidade, que possui dezenas de núcleos de tradição étnica dos colonizadores, além dos afamados Centros de Tradição Gaúcha (CTGs). O morador dos campos da fronteira e da região missioneira, porém, tornou-se símbolo da estampa oficial do sul.
Danças Típicas e CTGs
Os Centros de Tradição Gaúcha são associações civis que cultuam o tradicionalismo. Dentro dos CTGs acontecem os bailes - fandangos - gaúchos. O apelido fandango foi herdado das danças portuguesas, mesclas de canto e sapateado. Hoje os ritmos mais tocados são os aparentados da valsa (rancheira, chote, vaneira e bugiu) - e os pares dançam juntos.
Os grupos de dança folclórica também executam bailados típicos como a Tirana, Balaio, Pezinho e o Pau de Fita, onde fitas coloridas vão sendo trançadas em um poste pelos pares.
A chula - um desafio masculino de sapateado - e a dança dos facões, que simula uma luta, são igualmente populares.
Queres provar o Chimarrão?
O lendário chimarrão gaúcho é uma das muitas formas de tomar mate - uma infusão preparada com a "erva mate" que, na realidade, é uma árvore. Os índios guaranis acomodavam a beberagem no fruto da porongueira e a sorviam com canudos de taquara. O gaúcho conservou a cuia de porongo mas substituiu a taquara por bombas de metal.
O mate predileto dos nativos do Rio Grande do Sul é o chimarrão - quente e amargo. As mulheres, também tomam o mate, às vezes doce em canecos de porcelana. O chimarrão é uma espécie de ritual coletivo onde todos compartilham a mesma cuia e bomba. Seu simples oferecimento a alguém - sempre com a mão direita - é um sinal de apreço.
O chimarrão é similar ao “mate” argentino, mas um pouco mais suave. A erva é mais fina e verde é não é tão amargo.
O que tu achas de provar nossa comida tradicional?
Huuummmm.....
O churrasco gaúcho é um nome genérico para os vários cortes de carne de gado ou ovelha temperados com sal grosso e assados nas brasas. A melhor parte é a picanha (muito parecida à “colita de quadril”, para os argentinos). Originalmente era consumido apenas nas estâncias, mas hoje são feitos até em churrasqueiras de latão nos apartamentos. A velha comida campeira se sofisticou nas churrascarias disseminadas por todo o país. Os famosos rodízios ou espetos corridos são famosos por sua fartura e variedade de carnes, além das coloridas saladas e a famosa farofa. Nestes lugares, enquando pode-se saborear a comida, aprecia-se espetáculos típicos da região.
Embora seja o mais famoso, o churrasco não é a única delícia oferecida pelo cardápio do sul. Tu não podes deixar de experimentar comidas como o carreteiro de charque (arroz com carne salgada e cozida no sol), o quibebe (espécie de purê de abóbora), o mogango açucarado, o "puchero"(sopão de legumes com carne de peito, costela e lingüiça), o pastel de carreta (recheado com mondongo), arroz e feijão. Não se esquece de que esta tradição é apenas o que herdamos dos campeiros. Lembra que também temos uma fartura no que diz respeito às comidas italianas e alemãs?? (ver Boletim n° 14, viajando pelo Brasil).
Ai, “que saudade da comidinha lá de casa”...
Enquanto faz a digestão, vou falar um pouquinho da indumentária
A roupa do gaúcho - a pilcha - é uma singular composição de culturas antagônicas. As botas de couro, o chapéu e a boina estilo basco são legados portugueses e espanhóis. A faixa na cabeça e o poncho-pala foram herdados dos índios missioneiros. Mas as bombachas têm origem turca. A cor do lenço de seda - inventado pelo próprio gaúcho - já revelou o posicionamento políticos de quem o usava.
Menos complexos, os vestidos femininos imitavam as indumentárias européias. Os penteados eram adornados com mantilhas e pentes espanhóis. As prendas usavam saias e blusas e enfeitavam os cabelos com flores. Os dois figurinos se misturaram e ganharam uma versão florida de chita ou algodão, popularizada durante a Guerra do Paraguai.
Vamos ver os números??
PORTO ALEGRE
Características Físicas
Área total: 476,30 km²
Ilhas: 44,45 Km²
Clima: Subtropical úmido, com as quatro estações definidas.
Arborização: Praças: 395 (área: 3.050.508 m²)
Parques: 11 (área: 5.415.808 m²)
Índice de àrea verde: 13,62m²/hab
População: 1.286.251(fonte: IBGE/1996)
Etnias: a maior parte da população formou-se a partir da vinda de famílias de imigrantes oriundas de várias partes da Europa, principalmente portugueses, italianos e alemães.
Expectativa de vida: 71,4 anos (fonte: IBGE, DMAE, PMPA)
Olha como surgiu a cidade...
No ano de 1725 o tropeiro Jerônimo de Ornelas Menezes e Vasconcelo, madeirense residente em São Paulo, escolheu a Lagoa de Viamão, lugar cortado por inúmeros arroios e córregos, para ponto de repouso de suas tropas destinadas à feira de Sorocaba. A partir daí, fez das margens da lagoa uma espécie de entreposto de suas tropas. Em 1735, Jerônimo de Ornelas mandou buscar sua família para Viamão, pois o local lhe agradara.
Ali construiu seu solar e distribuiu sua gente pelos diversos recantos. Casas cobertas de palha e plantação de trigo surgiram em profusão.
A partir de então, o modesto povoado de Jerônimo de Ornelas estava predestinado a grandes empreendimentos. Através da solicitação do governo do continente de São Pedro, os portugueses resolveram firmar seu domínio nestas terras, enviando levas de colonizadores escolhidos, originária dos Açores (ilha pertencente a Portugal). Foram 60 casais que vieram juntar-se aos povoadores iniciais. No dia 26 de março de 1772, criada a freguesia pelo Bispo Dom Antônio do Desterro, o nome do Porto de São Francisco dos Casais foi alterado para Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre. Nesse momento, estava oficialmente fundada a futura Cidade de Porto Alegre.
José Marcelino de Figueiredo, mais tarde, conseguiu que o governo Central do Brasil, integrante do Reino Português, a transformasse em capital do Continente de São Pedro do Rio Grande do Sul.
Gostaste da cidade? Então fala para os amigos, hahaha... Da próxima vez que viajares de carro, dá uma passadinha.... Toma um chimarrão com a gente! Tu nunca vais esquecer este momento... Bah*!
Descobertas
Mário Quintana
Descobrir Continentes é tão fácil como esbarrar* com um elefante:
Poeta é o que encontra uma moedinha perdida...
Um grande abraço e até o próximo.
Vocabulário
Vento Minuano: vento frio e seco, que sopra no inverno, em geral por três dias no Rio Grande do Sul, causando um assobio típico.
Mário Quintana: poeta e escritor gaúcho, de renome no Brasil, nascido em Alegrete –interior do estado.
Inveja: Desejo violento de possuir o bem alheio
Pôr-do-sol: Crepúsculo vespertino; crepúsculo, ocaso
Esquecer: Deixar sair da memória; perder da lembrança; olvidar.
Saudade: Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia.
Aconchego: acolhedor
Gaúcho: Primitivamente, o habitante do campo, descendente, na maioria, de indígenas, de portugueses e de espanhóis. O natural ou habitante do Rio Grande do Sul.
Céu: Espaço ilimitado e indefinido onde se movem os astros.
Esquadrinhar: Examinar minuciosamente; vigiar com cuidado; investigar, pesquisar, perscrutar:
Lotar: Completar a capacidade.
Calçadão: Calçada ou passeio extenso e excepcionalmente largo, de belo efeito urbanístico
Chimarrão: mate cevado sem açúcar.
Lazer: Ócio, descanso, folga, vagar. Tempo de que se pode livremente dispor, uma vez cumpridos os afazeres habituais. Atividade praticada nesse tempo; divertimento, entretenimento, distração, recreio
Embrulhar: Envolver em papel, pano, etc., formando pacote; empacotar; emaçar.
Prédio: Casa; edifício
Prefeitura: Prédio onde funcionam os órgãos da administração municipal.
Bancas: Nos mercados e feiras livres, instalação onde é exposta a mercadoria.
Lambe-lambe: Fotógrafo ambulante
Grife: Marca comercial de produtos ou de linhas de produtos sofisticados, usada com o nome de pessoa famosa.
Corujice: ver seção “palavra do mês”
Cães: Plural de cão: Mamífero carnívoro, tipo dos canídeos. Feminino: cadela; plural: cães; perro, cachorro.
Coleira: Espécie de colar que cinge o pescoço dos animais
Capoeiristas: Jogador de capoeira
Capoeira: jogo acrobático usado pelos negros, na época da escravidão, como defesa contra os senhores de engenho.
Gurizada: Grande número de guris, grupo de meninos, garotos
Guri: Maneira de chamar os meninos no Rio Grande do Sul
Bah: Interjeição usada no Rio Grande do Sul que significa: “barbaridade!”
Esbarrar: topar, tropeçar